Há três anos e meio, a plataforma de mensagens Telegram abriga um amplo mercado paralelo conhecido como Xinbi Guarantee, um bazar anárquico em língua chinesa que oferece serviços de lavagem de dinheiro para golpistas de criptomoedas, produtos como bastões elétricos e tasers para operações de tráfico humano e, em alguns momentos, outros serviços criminosos variados, que vão de assédio por encomenda à prostituição de adolescentes.
Apesar de pesquisadores de crimes com criptomoedas apontarem repetidamente a atividade criminosa explícita no Telegram, a empresa permitiu que o Xinbi Guarantee crescesse e se tornasse o maior mercado paralelo da internet, com transações totais que somam impressionantes US$ 21 bilhões.
A dimensão da falha do Telegram em eliminar esse mercado de golpes foi colocada à prova no fim de março, quando o governo do Reino Unido sancionou oficialmente o Xinbi Guarantee e o classificou como facilitador de tráfico humano.
Ainda assim, quase três semanas depois, o Telegram não removeu as contas do Xinbi de sua plataforma, o que continuou a viabilizar negócios ilícitos que somaram mais de meio bilhão de dólares desde a entrada em vigor das sanções.
Segundo a empresa de rastreamento de criptomoedas Elliptic, o Xinbi Guarantee movimentou US$ 505 milhões em 19 dias após as sanções do governo britânico e adicionou dezenas de milhares de novos usuários, alcançando quase meio milhão de compradores e vendedores no total.
A Elliptic afirma não ter visto sinais de que o Telegram tenha adotado qualquer medida para banir o mercado ou suas contas.
“O Xinbi segue forte”, afirmou Tom Robinson, cofundador e cientista-chefe da Elliptic.
“Ele está no caminho para se tornar o maior mercado desse tipo que já existiu.”
A aparente recusa do Telegram em remover o mercado paralelo, um entre vários mercados paralelos em língua chinesa que operam na plataforma em plena vista do público, representa uma falta de responsabilização alarmante, diz Gary Warner, pesquisador de segurança que monitora o Xinbi Guarantee como diretor de inteligência da empresa de cibersegurança DarkTower.
“Isso me deixa perplexo”, disse Warner.
“Não existe literalmente nenhuma empresa legítima no mundo que hospede esse nível de atividade criminosa e seja tão aberta sobre isso.
Não há nada nem remotamente parecido.”
O Telegram não respondeu aos múltiplos pedidos de comentário sobre a hospedagem do Xinbi Guarantee após as sanções britânicas.
Em junho do ano passado, porém, um porta-voz da empresa justificou a presença do Xinbi Guarantee e de outros mercados paralelos em língua chinesa alegando que eles permitem que cidadãos chineses “busquem caminhos alternativos para movimentar recursos internacionalmente”, apesar dos rígidos controles financeiros da China.
“Analisamos denúncias caso a caso e rejeitamos categoricamente proibições generalizadas, especialmente quando usuários tentam contornar restrições opressivas impostas por regimes autoritários”, dizia a resposta do Telegram na época.
“Mantemos nosso compromisso inabalável de proteger a privacidade dos usuários e defender liberdades fundamentais, incluindo o direito à autonomia financeira.”
Essa descrição do Xinbi Guarantee como uma suposta “via alternativa” inofensiva para transferências internacionais já havia sido contrariada pelas conclusões da Elliptic, que apontaram que o Xinbi era usado majoritariamente como serviço de lavagem de dinheiro para a vasta indústria de golpes com criptomoedas, incluindo sindicatos organizados por chineses que controlam complexos em Mianmar, Camboja e Laos e escravizam centenas de milhares de vítimas de tráfico humano forçadas a trabalhar como golpistas.
A Elliptic encontrou anúncios publicados até o mês passado oferecendo produtos aparentemente voltados a essas operações de tráfico humano, entre eles bastões elétricos, tasers e algemas.
Em 26/03, o Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento do Reino Unido sancionou oficialmente o Xinbi por seu suposto papel em golpes e tráfico humano.
“O Xinbi permitiu e lucrou com a operação de centros de golpes no Sudeste Asiático”, dizia o comunicado das sanções.
“O tratamento dado a indivíduos nesses centros configura um abuso grave do direito de não ser submetido a tratamento ou punição cruel, desumana ou degradante, e do direito de não ser escravizado, não ser mantido em servidão nem ser obrigado a realizar trabalho forçado ou compulsório.”
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