O Futuro da Internet no Irã Está Mais Instável do Que Nunca
27 de Março de 2026

Por mais de seis dias, cerca de 90 milhões de iranianos vivem sob um blackout total da internet.

Essa interrupção sucede um bloqueio semelhante ocorrido no início de janeiro, seguido por semanas de conectividade limitada, enquanto o regime reprimia violentamente protestos antigoverno que resultaram em milhares de mortes.

Com a escalada do conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel, o cenário ganha uma nova dimensão, tornando o blackout ainda mais complexo e grave, embora não inédito no país.

Conforme planejado pelo regime, a população mantém acesso a uma intranet nacional, conhecida como National Information Network (NIN), e a um conjunto de aplicativos internos.

Essa rede doméstica permite a continuidade das atividades diárias mesmo com a desconexão da internet global.

Os iranianos também desenvolveram um “manual” para driblar as restrições e permanecer online o máximo possível, usando VPNs e outras redes proxy durante bloqueios parciais.

No entanto, durante o blackout total, essas ferramentas ficam inacessíveis.

Atualmente, apenas o governo iraniano, o setor militar, as elites abastadas e um pequeno grupo com acesso via terminais Starlink conseguem se conectar à internet global.

A escuridão digital caiu sobre o país quase imediatamente após os ataques com mísseis americanos e israelenses em 28 de fevereiro, que resultaram na morte do líder supremo Ali Khamenei.

Desde então, segundo Doug Madory, diretor de análise de internet da empresa Kentik, o tráfego de dados saindo do Irã foi “mínimo”, com queda de cerca de 99% em todas as redes.

“Acredita-se que exista uma lista branca autorizando o tráfego residual, seja para indivíduos com status privilegiado ou por razões técnicas, como atualização de certificados de criptografia”, explica.

Mesmo esse pequeno volume de conectividade sofre os impactos do conflito.

Madory relata que, dentro do acesso limitado, várias redes têm registrado novas falhas, provavelmente causadas por ataques à infraestrutura crítica do país.

O projeto de monitoramento de internet da Georgia Tech, IODA, também confirmou “danos a infraestruturas críticas de internet ou energia”, que derrubaram redes iranianas.

“Mesmo se o governo suspender o bloqueio, os problemas podem persistir devido a esses danos.

O blackout dificulta nossa compreensão do real estado da conectividade no Irã”, alerta Madory.

Nos últimos dez anos, o regime iraniano reforçou sua infraestrutura técnica, legislações e aparato de vigilância para controlar digitalmente a população.

Os múltiplos bloqueios registrados em 2019, 2022, 2023 e agora duas vezes em 2024 mostram o avanço nas técnicas de censura.

A cada blackout, os iranianos ficam isolados de seus familiares, sem acesso a fontes confiáveis de informação, e são silenciados ao tentar denunciar abusos do regime ou possíveis crimes de guerra.

Com o fortalecimento do controle digital, o Irã investiu na NIN e em seu conjunto de aplicativos internos como forma de manter a economia ativa e a vida cotidiana funcionando, mesmo sem acesso à internet global.

O grupo iraniano de direitos digitais Filterwatch aponta que, durante o bloqueio atual, o governo tem promovido um motor de busca doméstico dentro da intranet e emitido mensagens alertando que conexões à internet internacional podem acarretar sanções legais.

As plataformas da NIN são focos intensos de vigilância e controle da informação.

Especialistas afirmam que o desenho autoritário dessa rede interna cria um sistema hierarquizado de acesso no Irã, no qual a conectividade global é concedida seletivamente a elites, empresas de tecnologia, universidades e outras instituições, mas não à população em geral.

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