Grupo ligado ao Sandworm usa falsas entrevistas de emprego para distribuir VPN capaz de executar comandos
12 de Agosto de 2026 Atualizado em 12 de Agosto de 2026

Hackers associados ao grupo de ameaça russo Sandworm têm mirado administradores de sistemas e profissionais de TI por meio de falsas ofertas de emprego desde pelo menos maio de 2026.

A Equipe de Resposta a Emergências Cibernéticas da Ucrânia, o CERT-UA, divulgou detalhes de uma campanha de engenharia social atribuída ao UAC-0145, que se acredita ser um subcluster do Sandworm, também identificado como APT44, Seashell Blizzard e UAC-0002, um grupo sofisticado de hackers associado ao GRU. Segundo a agência, a operação está em andamento desde maio e tem como alvo profissionais de TI no país, abordados por criminosos que se passam por recrutadores e empresas do setor para induzi-los a instalar malware.

Segundo o CERT-UA, o atacante analisa os currículos enviados por candidatos em sites de vagas e, em seguida, inicia o contato direto. “Especificamente, em sites de busca de emprego, após analisar o currículo de um candidato, os atacantes entram em contato com a potencial vítima, normalmente um administrador de sistemas ou especialista em TI, em nome de uma empresa de tecnologia, como a ATLAS Business Group”, informou a agência.

As conversas passam então para o Telegram, onde são combinadas entrevistas em vídeo pelo Zoom. Durante a entrevista, conduzida em inglês, os candidatos recebem tarefas técnicas simuladas que exigem a conexão a uma VPN corporativa. Em um dos casos observados pelo CERT-UA, o atacante se passou pela empresa internacional de TI Sopra Steria usando endereços de e-mail aparentemente legítimos, semelhantes aos da unidade da companhia na Bulgária.

Embora a comunicação inicial ocorra por meio de um chat online embutido na plataforma de vagas, a conversa depois migra para aplicativos de mensagens, como o Telegram. Nesse estágio, a vítima é atendida por um suposto gerente de RH, que afirma estar responsável pela triagem de candidatos para a Sopra Steria Bulgaria, uma empresa legítima de consultoria e software com sede na Europa. Durante a conversa, são feitas perguntas gerais sobre trabalho e sobre o nível de inglês do candidato. Em seguida, a pessoa é convidada para uma videoconferência no Zoom.

A reunião de fato acontece, com um homem que fala inglês e parece ter entre 30 e 35 anos. No entanto, não está claro se a pessoa que aparece na entrevista era um participante real ou uma persona sintética gerada com IA.

Em paralelo, instruções adicionais para a entrevista técnica são enviadas por e-mail, incluindo arquivos de configuração para conexão a uma VPN “corporativa” usando WireGuard (Linux/Windows), sob a justificativa de que a vítima deveria concluir uma avaliação. O material inclui um link para uma segunda reunião no Zoom, durante a qual o teste seria monitorado.

Se a vítima tenta se conectar à VPN com os arquivos fornecidos, encontra um erro falso. Diante disso, os hackers recomendam o download de uma solução de VPN personalizada chamada SopraVPN, hospedada no SourceForge, por meio de um link falso criado para imitar o site da Sopra Steria Bulgaria, em "soprasteria-bg[.]com". A página no SourceForge ainda inclui um link para o domínio, sem qualquer relação com a empresa legítima, para aumentar a credibilidade.

Os endereços identificados foram:

sourceforge[.]net/projects/soprabulgariavpn
sourceforge[.]net/projects/sopravpn

Também identificou-se um terceiro projeto no SourceForge, "sourceforge[.]net/projects/soprasteriavpn/", que se apresenta como uma “solução de VPN corporativa open source projetada para empresas que buscam acesso remoto seguro e conectividade site-to-site sem taxas caras de licenciamento”, segundo resultados armazenados em cache pelo Google Search. Nenhum desses projetos está disponível para download.

“A essência desse truque é que o cliente de VPN dos atacantes foi compilado a partir do código-fonte do WireGuard com várias modificações”, explicou a CERT-UA. “Especificamente, o suporte à opção não padrão 'SymmetricKey' foi adicionado ao mecanismo de processamento da configuração; seu valor contém dados codificados em BASE64 para AES-256-GCM: um nonce, ciphertext e uma tag de autenticação.”

“Um valor de 32 bytes obtido ao decodificar 'PrivateKey' é usado como chave AES-256. O código PowerShell assim decifrado é então passado ao mecanismo padrão 'runScriptCommand', que o WireGuard usa, em particular, para executar comandos especificados pela opção 'PostUp'.”

Em outras palavras, a versão adulterada do WireGuard permite que um atacante execute comandos arbitrários no computador da vítima sem que ela perceba. O CERT-UA também observou que a decodificação Base64 padrão do WireGuard foi substituída na versão adulterada por um alfabeto Base64 personalizado e gerado dinamicamente, o que torna as cadeias de chaves ilegíveis com decodificadores padrão e protege o código PowerShell contra análise.

O cliente de VPN para Windows também usa um comando PowerShell para criar uma tarefa agendada que baixa um payload secundário de uma URL remota. Já a variante para Linux utiliza cURL para baixar o arquivo executável da infraestrutura dos atacantes por meio de uma VPN. A natureza exata do payload da próxima etapa ainda não está clara.

A agência cibernética ucraniana recomenda que operadoras de telecomunicações e empresas de TI cujos funcionários sejam alvo dessa campanha restrinjam o acesso a recursos corporativos apenas a dispositivos gerenciados, continuamente monitorados e protegidos por EDR, inclusive quando os colaboradores usarem equipamentos pessoais. A CERT-UA também orienta profissionais de TI a ficarem atentos a técnicas de engenharia social para se protegerem de possíveis ataques de malware.

A divulgação ocorre menos de um mês depois de a agência atribuir o threat actor a outra campanha que usa a técnica ClickFix de engenharia social para infectar máquinas ucranianas com malware de roubo de dados.

Com a nova descoberta, hackers russos se juntam a adversários chineses, iranianos e norte-coreanos no uso de campanhas falsas de recrutamento para obter acesso não autorizado a sistemas-alvo. O APT44 é conhecido por mirar infraestrutura crítica e órgãos governamentais tanto na Ucrânia quanto em outros países.

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