Golpistas Chineses no Telegram Impulsionam os Maiores Mercados da DarkWeb
16 de Janeiro de 2026

Quando, há mais de uma década, os mercados negros de drogas, armas e contrabando surgiram na dark web, a combinação de criptomoedas com a sofisticada tecnologia de anonimato do software Tor parecia a fórmula perfeita para viabilizar transações ilícitas bilionárias e praticamente intocáveis.

Hoje, em 2025, essa realidade mudou.

Para movimentar dezenas de bilhões de dólares em operações ilegais no mercado de criptomoedas, basta uma plataforma de mensagens que tolere golpistas e traficantes, persistência para reativar canais e contas bloqueadas, e fluência em mandarim.

Segundo uma análise recente da empresa de rastreamento de criptomoedas Elliptic, o ecossistema de marketplaces dedicados a scams em chinês no Telegram alcançou um tamanho sem precedentes.

Após uma queda temporária provocada pela proibição de dois dos maiores mercados no início de 2025, os principais atualmente — Tudou Guarantee e Xinbi Guarantee — movimentam juntos cerca de US$ 2 bilhões por mês em transações ilegais.

Essas operações envolvem lavagem de dinheiro, venda de ferramentas de fraude como dados roubados, sites falsos de investimento, deepfakes gerados por IA e outros serviços do mercado negro, que vão desde gestação por substituição até prostituição de adolescentes.

As fraudes conhecidas como “pig butchering” — golpes românticos e de investimento, realizados principalmente em complexos no Sudeste Asiático, utilizando milhares de vítimas de tráfico humano — são hoje o crime cibernético mais lucrativo do mundo.

Só nos Estados Unidos, essas fraudes geram cerca de US$ 10 bilhões por ano, segundo o FBI.

Mercados como Tudou Guarantee e Xinbi Guarantee crescem paralelamente, oferecendo serviços de lavagem de dinheiro e ferramentas para esses esquemas.

“Quando se trata do uso ilícito de ativos em criptomoedas, não existe nada maior atualmente”, afirma Tom Robinson, cofundador e cientista-chefe da Elliptic.

Na verdade, esses mercados criminosos não são apenas os maiores da atualidade, mas os maiores da história online.

Sites como AlphaBay, que ofereciam drogas, dados roubados e ferramentas de hacking, facilitaram mais de US$ 1 bilhão em transações ao longo de dois anos e meio, dez vezes mais que o Silk Road em seu auge.

Já o Hydra, mercado russo que também oferecia serviços de lavagem de dinheiro para grupos de ransomware, movimentou mais de US$ 5 bilhões em sete anos.

Em comparação, o Huione Guarantee — marketplace chinês baseado no Telegram, usado principalmente por golpistas de criptomoedas — facilitou surpreendentes US$ 27 bilhões em transações entre 2021 e 2025, superando qualquer outro mercado negro online anterior, mesmo operando abertamente na plataforma de mensagens.

A Elliptic o definiu como “o maior mercado ilícito online já registrado”.

O WIRED tentou contato via Telegram com os administradores do Tudou Guarantee e do Xinbi Guarantee, mas não obteve resposta.

Em maio, o Telegram tomou uma medida ao banir o Huione Guarantee — que havia se rebatizado como Haowang Guarantee — após ser identificado como operação de lavagem de dinheiro pelo Financial Crimes Enforcement Network (FinCEN), órgão do Tesouro dos EUA.

Desde então, o Tudou Guarantee, no qual Haowang detém participação, cresceu para ocupar o espaço vago, alcançando US$ 1,1 bilhão em transações mensais, quase chegando aos US$ 1,4 bilhão de Haowang antes do banimento.

O Xinbi Guarantee, segundo maior mercado de scams em cripto, também cresceu para US$ 850 milhões mensais, apesar de ter sido banido e relançado.

Somados, esses volumes superam qualquer recorde anterior, e a Elliptic monitora cerca de 30 desses mercados no Telegram, totalizando dezenas de bilhões de dólares em transações anuais.

Em junho, o WIRED alertou o Telegram sobre a reconstrução dessas redes criminosas à vista da plataforma — um repórter da revista chegou a estar em um canal onde os pesquisadores da Elliptic compartilhavam evidências do ressurgimento de Tudou e Xinbi com contatos corporativos da empresa.

No entanto, o Telegram respondeu que optou por não banir novamente esses mercados, alegando que eles oferecem alternativa a usuários chineses que tentam escapar dos “controles de capital” locais, que “frequentemente deixam os cidadãos sem opção senão buscar meios alternativos para movimentar fundos internacionalmente”.

“Avaliamos cada denúncia individualmente e rejeitamos categoricamente bans genéricos — especialmente quando se tratam de usuários tentando contornar restrições opressivas impostas por regimes autoritários”, declarou o Telegram ao WIRED em junho.

“Permanecemos firmes em nosso compromisso de proteger a privacidade dos usuários e defender liberdades fundamentais, incluindo o direito à autonomia financeira.”

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