A gigante da vigilância veicular Flock Safety afirma há anos ao público que sua tecnologia “não pode reconhecer, identificar ou rastrear indivíduos”. Agora, a empresa desenvolveu um sistema que faz justamente isso: uma ferramenta de inteligência artificial para a polícia capaz de identificar motoristas e rastrear veículos apenas com base em seus padrões de deslocamento.
Com base em uma rede de câmeras que registra os movimentos de motoristas em mais de 6.000 comunidades, a ferramenta consegue apontar possíveis testemunhas pela frequência com que seus carros passam por determinado bairro ou até revelar os “associados” de um motorista a partir das câmeras que eles cruzam juntos. Como o sistema também consulta arquivos policiais, registros de chamadas ao 911 e bases comerciais de identidade, essas placas podem ser convertidas em nomes, endereços residenciais e parentes. A ferramenta também pode procurar pessoas em uma área desenhada em um mapa com base apenas em uma descrição física.
O software, originalmente chamado Nightshift e mais recentemente rebatizado como OS Investigate, vem com 69 sugestões de comandos prontas, que os agentes podem selecionar, revisar ou editar antes de enviar à IA. Os policiais também podem escrever seus próprios comandos.
As sugestões estão reunidas em um conjunto de mais de 450 arquivos disponibilizados nas páginas de login da própria Flock para qualquer pessoa que os acessasse. O código descreve 45 ferramentas à disposição da IA, com acesso a leituras de placas e metadados de câmeras, registros de prisão, arquivos de casos, logs de despacho, resultados de balística e bases comerciais que reúnem números de CPF, datas de nascimento, telefones, endereços de e-mail, parentes e associados.
A Flock afirma que está testando o produto com um pequeno grupo de parceiros da segurança pública e o descreve como ainda em desenvolvimento, com capacidades que podem não refletir o que será vendido no futuro. O lançamento ocorre em meio a pressão política bipartidária, a um histórico crescente de agentes flagrados usando indevidamente a plataforma e a uma onda de vandalismo que já deixou câmeras arrancadas e lentes pintadas em cidades de todo o país.
Especialistas em privacidade e direito afirmam que as ferramentas da Flock já levantam sérias preocupações constitucionais ao dar à polícia amplo acesso, muitas vezes sem mandado, a um vasto histórico de deslocamento das pessoas. Mas os comandos analisados vão além, transformando uma ferramenta para localizar um veículo conhecido em um sistema que lança suspeitas sobre motoristas com base em onde eles dirigem e com que frequência, independentemente de estarem ou não sendo procurados por um crime.
A Flock construiu seu negócio sobre uma transação simples: uma câmera fotografa um carro em movimento, converte a placa em texto e a compara com uma lista de veículos procurados pela polícia. Carros que não estão na lista são registrados e, de resto, ignorados. Os comandos pré-carregados do OS Investigate descrevem uma inversão desse modelo. O agente já não precisa de uma placa, um nome ou um crime para começar. Basta informar um local, um intervalo de tempo e um padrão de comportamento, e o sistema foi projetado para devolver as pessoas que se encaixam no perfil.
Todos os 69 comandos são oferecidos aos policiais como um menu de buscas prontas. Ao selecionar uma delas, o texto é inserido em uma caixa de conversa, onde o agente pode revisá-lo ou editá-lo antes de clicar novamente para enviar.
Publicidade
Nossa audiência é formada por analistas, pentesters, decisores e entusiastas que consomem nossas notícias todo dia pelo Site, Newsletter e Instagram. Fale com quem realmente importa para o seu negócio. Anuncie aqui. Saiba mais...