Falha de gravação de quatro bytes e bug de temporização permitem executar código no enclave do Windows SmartScreen
14 de Outubro de 2026

Pesquisadores de segurança executaram código próprio em uma área protegida do Windows, projetada para permanecer isolada mesmo que o restante do computador seja comprometido.

Essa área é um enclave VBS, uma região isolada da memória que o sistema operacional usa para proteger segredos. O enclave alvo dos pesquisadores armazena senhas usadas por um recurso do Windows contra phishing.

O trabalho foi realizado em laboratório como prova de conceito. Não há registro de uso da técnica em ataques reais, e a Microsoft corrigiu a falha na atualização de 8 de setembro de 2026.

Identificada como CVE-2026-83498 , a falha é classificada pela Microsoft como um problema de escalonamento de privilégios e recebeu pontuação CVSS de 7,8. A empresa afirma que a vulnerabilidade não foi explorada nem era conhecida publicamente antes da correção. Também diz ter identificado o mesmo problema internamente. A pesquisa, conduzida pela empresa de segurança Doyensec, foi publicada em 13 de outubro, mais de um mês após a disponibilização da correção.

Um enclave VBS é uma biblioteca assinada que um programa comum do Windows carrega, mas não pode ler nem alterar enquanto ela está em execução. Segundo a Microsoft, o hipervisor do Windows mantém a memória do enclave em um ambiente mais confiável, chamado VTL1 ou Modo de Usuário Isolado. O código comum, executado no ambiente convencional VTL0, não consegue acessá-la.

O projeto busca proteger o conteúdo do enclave mesmo que um invasor já tenha comprometido o kernel convencional ou esteja executando código como SYSTEM. É por isso que a pesquisa chama atenção: os pesquisadores conseguiram executar código escolhido pelo invasor nesse ambiente protegido.

O enclave atacado pela Doyensec é o SFAPE.dll, componente por trás do recurso Enhanced Phishing Protection do Microsoft Defender SmartScreen. O recurso monitora o texto digitado ou colado e alerta quando alguém insere a senha de acesso ao Windows em um local inseguro, como o Bloco de Notas ou uma página de phishing.

Para realizar essa verificação sem expor a senha, o Windows a intercepta durante o acesso ao sistema e a armazena no enclave em forma de hash. Assim, entradas posteriores podem ser comparadas com ela. No Windows 11, o programa que carrega o enclave é o lsass.exe, processo responsável pelas credenciais de acesso e executado como SYSTEM.

O ataque não pode ser realizado à distância. Ele exige que um programa já esteja em execução no computador e carregue e invoque o enclave. No caso do SFAPE, esse programa é o LSASS. A classificação da própria Microsoft confirma esse cenário: o vetor de ataque é local, o invasor precisa de acesso de baixo nível e não é necessária a interação do usuário. Em resumo, a técnica permite que um código que já conseguiu acesso ao sistema alcance o ambiente mais confiável ao lado, mas não oferece uma forma de invadir o computador de fora.

A Doyensec desenvolveu o ataque a partir de um pequeno erro, ampliando seus efeitos passo a passo. Se a função Initialize do enclave for chamada pela segunda vez, ela grava um valor de erro fixo de quatro bytes em um endereço controlado pelo programa que fez a chamada. Nessa segunda execução, a verificação do endereço feita na primeira chamada é ignorada.

A Doyensec ressalta que, por si só, o problema é limitado. Segundo os pesquisadores, chamar a falha de escrita arbitrária “seria um exagero enorme”. No entanto, se direcionada ao local certo, essa gravação corrompe o valor usado pelo enclave para distinguir sua própria memória daquela do sistema hospedeiro. Com isso, a verificação de segurança deixa de funcionar.

A partir daí, uma falha de temporização em outra função provoca uma zeragem controlada. Essa operação altera a forma como o enclave localiza um objeto armazenado. As operações de leitura e gravação resultantes permitem que os pesquisadores substituam a tabela que determina qual código o enclave pode executar.

O resultado é a execução de código escolhido pelo invasor dentro do enclave. O trabalho rompeu o isolamento da área protegida, mas não demonstrou que a senha de um usuário tenha sido lida ou roubada. O comunicado da Microsoft descreve o impacto como vazamento de dados ou execução de código dentro do enclave.

A Microsoft corrigiu a falha na atualização cumulativa de 8 de setembro de 2026, KB5124008, para as versões 24H2 e 25H2 do Windows 11. Ao comparar os arquivos antigos e novos, a Doyensec constatou que o enclave corrigido agora verifica o endereço antes da primeira gravação e reforça a função explorada pela falha de temporização.

A atualização também inclui uma nova política que impede o carregamento da versão antiga e vulnerável do enclave SFAPE. Assim, um sistema atualizado não pode executá-la. Não é necessário aplicar uma solução alternativa separada: basta instalar a atualização.

Uma lacuna, porém, continua existindo. O Windows não tem uma lista geral de bloqueio para enclaves vulneráveis, como a que mantém para drivers vulneráveis. Além disso, a política de setembro bloqueia apenas o arquivo antigo do SFAPE. Um enclave mais antigo do Microsoft Edge, com uma falha semelhante de leitura e gravação, identificada como CVE-2023-36880 em 2023, ainda pode ser carregado, segundo a Doyensec.

Não está claro se essa decisão foi intencional ou se passou despercebida. A questão é relevante porque carregar um enclave assinado, mas vulnerável, é uma técnica conhecida, às vezes chamada de “traga seu próprio enclave vulnerável”. Pesquisas anteriores da Akamai e da Outflank usaram essa abordagem para esconder código e dados de ferramentas de segurança. Bloquear um enclave vulnerável enquanto outro continua disponível mantém essa técnica ao alcance de invasores.

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