Pesquisadores de segurança executaram código próprio em uma área protegida do Windows, projetada para permanecer isolada mesmo que o restante do computador seja comprometido.
Essa área é um enclave VBS, uma região isolada da memória que o sistema operacional usa para proteger segredos. O enclave alvo dos pesquisadores armazena senhas usadas por um recurso do Windows contra phishing.
O trabalho foi realizado em laboratório como prova de conceito. Não há registro de uso da técnica em ataques reais, e a Microsoft corrigiu a falha na atualização de 8 de setembro de 2026.
Identificada como
CVE-2026-83498
, a falha é classificada pela Microsoft como um problema de escalonamento de privilégios e recebeu pontuação CVSS de 7,8. A empresa afirma que a vulnerabilidade não foi explorada nem era conhecida publicamente antes da correção. Também diz ter identificado o mesmo problema internamente. A pesquisa, conduzida pela empresa de segurança Doyensec, foi publicada em 13 de outubro, mais de um mês após a disponibilização da correção.
Um enclave VBS é uma biblioteca assinada que um programa comum do Windows carrega, mas não pode ler nem alterar enquanto ela está em execução. Segundo a Microsoft, o hipervisor do Windows mantém a memória do enclave em um ambiente mais confiável, chamado VTL1 ou Modo de Usuário Isolado. O código comum, executado no ambiente convencional VTL0, não consegue acessá-la.
O projeto busca proteger o conteúdo do enclave mesmo que um invasor já tenha comprometido o kernel convencional ou esteja executando código como SYSTEM. É por isso que a pesquisa chama atenção: os pesquisadores conseguiram executar código escolhido pelo invasor nesse ambiente protegido.
O enclave atacado pela Doyensec é o SFAPE.dll, componente por trás do recurso Enhanced Phishing Protection do Microsoft Defender SmartScreen. O recurso monitora o texto digitado ou colado e alerta quando alguém insere a senha de acesso ao Windows em um local inseguro, como o Bloco de Notas ou uma página de phishing.
Para realizar essa verificação sem expor a senha, o Windows a intercepta durante o acesso ao sistema e a armazena no enclave em forma de hash. Assim, entradas posteriores podem ser comparadas com ela. No Windows 11, o programa que carrega o enclave é o lsass.exe, processo responsável pelas credenciais de acesso e executado como SYSTEM.
O ataque não pode ser realizado à distância. Ele exige que um programa já esteja em execução no computador e carregue e invoque o enclave. No caso do SFAPE, esse programa é o LSASS. A classificação da própria Microsoft confirma esse cenário: o vetor de ataque é local, o invasor precisa de acesso de baixo nível e não é necessária a interação do usuário. Em resumo, a técnica permite que um código que já conseguiu acesso ao sistema alcance o ambiente mais confiável ao lado, mas não oferece uma forma de invadir o computador de fora.
A Doyensec desenvolveu o ataque a partir de um pequeno erro, ampliando seus efeitos passo a passo. Se a função Initialize do enclave for chamada pela segunda vez, ela grava um valor de erro fixo de quatro bytes em um endereço controlado pelo programa que fez a chamada. Nessa segunda execução, a verificação do endereço feita na primeira chamada é ignorada.
A Doyensec ressalta que, por si só, o problema é limitado. Segundo os pesquisadores, chamar a falha de escrita arbitrária “seria um exagero enorme”. No entanto, se direcionada ao local certo, essa gravação corrompe o valor usado pelo enclave para distinguir sua própria memória daquela do sistema hospedeiro. Com isso, a verificação de segurança deixa de funcionar.
A partir daí, uma falha de temporização em outra função provoca uma zeragem controlada. Essa operação altera a forma como o enclave localiza um objeto armazenado. As operações de leitura e gravação resultantes permitem que os pesquisadores substituam a tabela que determina qual código o enclave pode executar.
O resultado é a execução de código escolhido pelo invasor dentro do enclave. O trabalho rompeu o isolamento da área protegida, mas não demonstrou que a senha de um usuário tenha sido lida ou roubada. O comunicado da Microsoft descreve o impacto como vazamento de dados ou execução de código dentro do enclave.
A Microsoft corrigiu a falha na atualização cumulativa de 8 de setembro de 2026, KB5124008, para as versões 24H2 e 25H2 do Windows 11. Ao comparar os arquivos antigos e novos, a Doyensec constatou que o enclave corrigido agora verifica o endereço antes da primeira gravação e reforça a função explorada pela falha de temporização.
A atualização também inclui uma nova política que impede o carregamento da versão antiga e vulnerável do enclave SFAPE. Assim, um sistema atualizado não pode executá-la. Não é necessário aplicar uma solução alternativa separada: basta instalar a atualização.
Uma lacuna, porém, continua existindo. O Windows não tem uma lista geral de bloqueio para enclaves vulneráveis, como a que mantém para drivers vulneráveis. Além disso, a política de setembro bloqueia apenas o arquivo antigo do SFAPE. Um enclave mais antigo do Microsoft Edge, com uma falha semelhante de leitura e gravação, identificada como
CVE-2023-36880
em 2023, ainda pode ser carregado, segundo a Doyensec.
Não está claro se essa decisão foi intencional ou se passou despercebida. A questão é relevante porque carregar um enclave assinado, mas vulnerável, é uma técnica conhecida, às vezes chamada de “traga seu próprio enclave vulnerável”. Pesquisas anteriores da Akamai e da Outflank usaram essa abordagem para esconder código e dados de ferramentas de segurança. Bloquear um enclave vulnerável enquanto outro continua disponível mantém essa técnica ao alcance de invasores.
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