Exploit “usbliter8” quebra a boot chain SecureROM de Apple A12 e A13 sem correção disponível
22 de Junho de 2026

Pesquisadores de segurança da Paradigm Shift publicaram um exploit funcional, batizado de usbliter8, que consegue executar código arbitrário dentro do SecureROM dos chips A12 e A13 da Apple.

Esse código é gravado diretamente no silício durante a fabricação.

Nenhuma atualização de software consegue alcançá-lo.

Assim, os dispositivos afetados carregarão essa falha enquanto estiverem em uso.

Não se trata de um ataque remoto.

É necessário ter posse física do dispositivo, que precisa estar em modo DFU e conectado via USB a uma placa microcontroladora dedicada baseada em RP2350.

Com essa configuração, o exploit é concluído em menos de dois segundos, antes de a cadeia de inicialização assinada da Apple ser carregada.

O detalhamento técnico completo e uma proof of concept funcional foram divulgados em 18 de junho de 2026, após uma divulgação coordenada com a Apple Product Security.

Dispositivos afetados

A prova de conceito pública é compatível com os SoCs A12, A13, S4 e S5.

O suporte aos A12X e A12Z é descrito como teoricamente possível, mas ainda não foi implementado.

Entre os aparelhos dessa faixa estão o iPhone XS, XS Max e XR; o iPhone 11, 11 Pro e 11 Pro Max; o iPhone SE de 2ª geração; o iPad Air de 3ª geração, o iPad mini de 5ª geração e o iPad de 8ª geração; o Apple Watch Series 4 e 5; a primeira geração do Apple Watch SE; o HomePod mini; além de outros produtos da Apple baseados nesses chips.

O A11 não é afetado.

Já o A14 e modelos posteriores parecem estar fora do alcance desse caminho de exploração.

A causa raiz é uma falha de hardware no controlador USB Synopsys DWC2.

O controlador armazena os pacotes USB Setup recebidos por DMA, mantém até três em buffer e, ao receber o quarto, redefine o ponteiro de gravação ao decrementá-lo em 24 bytes fixos.

Ele também aceita pacotes menores do que o padrão, incrementando o ponteiro apenas pelo número real de bytes gravados.

Essa incompatibilidade se acumula até gerar um underflow repetível de buffer, fazendo o ponteiro de gravação recuar pela memória em passos de 12 bytes.

O que torna isso explorável no A12 e no A13 é a forma como a Apple configura o USB DART, o Device Address Resolution Table, que funciona como o IOMMU do chip, dentro do SecureROM.

Nos dispositivos afetados, ele opera em modo de bypass, permitindo que o ponteiro de DMA em underflow alcance e sobrescreva qualquer área da SRAM.

O A11 não é afetado porque seu driver USB redefine manualmente o endereço de DMA após cada pacote, de modo que a incompatibilidade nunca se acumula.

Já o A14 e os modelos posteriores parecem configurar o DART corretamente, o que, segundo a Paradigm Shift, torna a vulnerabilidade inexplotável no hardware mais novo.

No A12, o buffer de DMA fica ao lado da pilha da tarefa USB no heap.

A sobrescrita de um registrador de link salvo entrega ao atacante o controle do contador de programa na próxima troca de contexto.

No A13, o desafio é maior.

O Pointer Authentication, ou PAC, protege os endereços de retorno armazenados na pilha.

A Paradigm Shift contornou isso em etapas.

A corrupção de estruturas do heap relacionadas ao DART criou primitivas limitadas de escrita.

A sobrescrita do contador de profundidade de panic fez o chip entrar em loop diante de erros, em vez de reiniciar.

O ajuste cuidadoso do tempo de gravação por DMA evitou corromper os registradores salvos da tarefa USB.

A etapa final sobrescreveu o ponteiro do manipulador de interrupção USB na BSS.

A próxima interrupção USB então executou código fornecido pelo atacante.

Em ambos os caminhos, a execução termina em EL1, o modo privilegiado do chip, dentro do SecureROM.

Após a exploração, o usbliter8 injeta um manipulador personalizado de requisições USB e grava PWND:[usbliter8] na string serial USB do dispositivo.

A partir daí, um atacante pode rebaixar temporariamente o modo de produção do SoC ou inicializar uma imagem bruta do iBoot sem assinatura, sem nenhuma verificação de assinatura, saindo completamente da cadeia de confiança da Apple.

A pesquisa não mostra comprometimento do Secure Enclave.

O Secure Enclave da Apple foi projetado como um limite de proteção separado, isolado do processador principal.

A Paradigm Shift alerta, porém, que o controle em nível de BootROM pode abrir novos caminhos para atacá-lo.

Sem patch de software

O precedente público mais próximo é o checkm8, o exploit de SecureROM de 2019 que colocou permanentemente os dispositivos A5 até A11 fora do alcance de correções da Apple.

Assim como o checkm8, o usbliter8 exige acesso físico e modo DFU, e não pode ser corrigido com atualização de firmware.

O usbliter8 estende essa condição à próxima geração de chips.

Em 19 de junho de 2026, não havia CVE, pontuação CVSS, comunicado de segurança da Apple nem alerta da CISA, e também não havia relatos públicos de exploração em ambiente real.

Para a maioria dos usuários, o risco prático é baixo, já que o atacante precisa do dispositivo físico, do cabo correto e do conhecimento necessário para forçar o modo DFU.

Para ambientes de alta segurança, o problema agora é de aposentadoria de hardware e de custódia do dispositivo.

Se um aparelho usa um dos chips afetados, a barreira física desaparece de forma permanente.

A proteção passa a depender do controle sobre quando e onde o dispositivo pode ser conectado.

É recomendável mapear o hardware A12, A13, S4 e S5 em funções sensíveis, priorizar a substituição por A14 ou versões mais novas e evitar o modo DFU em cabos USB ou hosts não confiáveis.

O código é público.

E é assim que a pesquisa em exploits normalmente deixa de ser apenas uma demonstração e passa a virar ferramenta nas mãos de terceiros.

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