Criptografia enfrenta pressão crescente por todos os lados
5 de Novembro de 2026

Ah, Canadá. O Grande Norte Branco é o mais recente país a considerar uma legislação que, na prática, poderia obrigar empresas a criar backdoors e ampliar a retenção de dados em serviços criptografados. As mudanças propostas levaram a Psiphon, provedora canadense de VPN que mantém milhões de iranianos conectados durante bloqueios repressivos da internet, a declarar que deixará o país se o projeto de lei for aprovado. E a Psiphon não está sozinha.

O Signal, aplicativo de mensagens criptografadas, afirmou que deixaria o mercado canadense porque a legislação exigiria mudanças inaceitáveis em seus projetos open source. Apple e Meta criticaram o projeto, enquanto DuckDuckGo e NordVPN dizem que também considerariam retirar seus serviços do país. Mas, à medida que governos de várias partes do mundo avaliam propostas semelhantes, surgem questões maiores sobre quais países ou regiões poderiam se tornar refúgios seguros para serviços voltados à privacidade, caso a hostilidade global à criptografia continue aumentando.

É frustrante e preocupante ver cada vez mais democracias proporem mudanças nas leis de vigilância e coleta de dados para ampliar os poderes de acesso de policiais e agências de inteligência às informações das pessoas. Os governos já dispõem de amplos poderes de vigilância digital e de métodos de investigação para solucionar crimes que envolvem dados criptografados. Ainda assim, as propostas legislativas quase sempre incluem medidas para ampliar ainda mais esse acesso, como exigir o armazenamento de registros adicionais e criar o que, na prática, seriam backdoors ou falhas intencionais em produtos criptografados. Criptógrafos e engenheiros de segurança afirmam repetidamente que não é possível criar essas brechas de forma segura. Há décadas, todos que entendem do assunto dizem isso. Mesmo assim, legisladores voltam à mesma ideia, aparentemente à espera de uma conclusão diferente ou de um avanço que torne tudo possível.

“Há muito tempo, alguns funcionários de determinadas agências tendem a enxergar a tecnologia como uma cena de crime em si. Isso se transforma em um foco limitado, centrado no desejo de obter acesso”, afirma Kate Robertson, pesquisadora sênior associada do Citizen Lab, da Universidade de Toronto. “Mas esse tipo de pensamento compartimentalizado ignora que a tecnologia precisa ser uma plataforma operacional segura para hospitais, bancos, agências de segurança nacional e os próprios serviços policiais, que precisam proteger as vítimas que compartilham informações privadas com eles.”

Nos últimos anos, Reino Unido e Austrália aprovaram amplas reformas de vigilância que podem obrigar empresas a quebrar a criptografia de seus serviços. Outras propostas que ameaçam a criptografia também surgiram na União Europeia, na França, na Índia, na Irlanda, na Espanha, na Suécia, na Suíça e em outros lugares. Embora nem todas tenham sido aprovadas ou implementadas, a hostilidade é evidente.

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