A Microsoft está alertando para uma “campanha de phishing em alto volume” que está usando caracteres invisíveis de tag em Unicode para burlar filtros de e-mail.
“Em vez de usar esses caracteres para esconder instruções das pessoas enquanto as expunha para modelos de IA, o invasor os usou para dividir palavras de isca financeira, como ‘funding’, e assim impedir que os filtros de e-mail as interpretassem”, disse a equipe de pesquisa de segurança da Microsoft.
A empresa responsável pelo Windows afirmou que as descobertas mostram que técnicas de evasão da era da IA podem ser adaptadas por threat actors em campanhas tradicionais de phishing e spam. Os ataques que exploram essa abordagem teriam surgido pela primeira vez no início de fevereiro de 2026.
ASCII Smuggling é o nome de uma técnica em que caracteres Unicode invisíveis ou que não são renderizados são usados para esconder mensagens ou instruções dentro de um texto aparentemente inofensivo. Com isso, interfaces usadas por pessoas não exibem esses caracteres, e o conteúdo parece totalmente normal ao usuário.
No entanto, esse tipo de conteúdo pode ser ingerido por filtros de e-mail ou modelos de linguagem de IA, que podem tratá-lo erroneamente como texto real. Isso, por sua vez, abre espaço para prompt injection, já que grandes modelos de linguagem, os LLMs, não conseguem estabelecer uma fronteira confiável entre instruções legítimas inseridas diretamente em um prompt e conteúdo embutido em um texto aparentemente benigno ou em outras fontes de terceiros, como páginas da web, documentos ou e-mails.
“O intervalo mais abusado é o bloco Unicode Tags, de U+E0000 a U+E007F”, informou a Microsoft. “Esse bloco contém uma cópia oculta dos caracteres ASCII imprimíveis, por exemplo, U+E0041 espelha ‘A’ e U+E0061 espelha ‘a’. O bloco foi originalmente criado para marcação de idioma e hoje está amplamente obsoleto.”
Segundo a Microsoft, a campanha de phishing baseada em ASCII Smuggling entrou em uma fase de alto volume por cerca de três meses, antes de cair de forma acentuada após 15 de maio de 2026. A atividade teria seguido um ritmo semanal, praticamente desaparecendo nos fins de semana e voltando com força total às segundas-feiras.
A estimativa é de que o volume em dias úteis tenha variado entre 1 milhão e 2,37 milhões de mensagens, com pico em 26 de fevereiro de 2026. A campanha é considerada ligada a uma operação mais ampla de phishing que abusou da plataforma de marketing e automação ActiveCampaign para distribuir milhares de e-mails de phishing gerados por IA contra candidatos a empréstimos da Small Business Administration, a SBA.
Os detalhes dessa campanha foram divulgados pela equipe Fortra Intelligence and Research Experts, a FIRE, em setembro de 2025. Na ocasião, o grupo informou que a operação tinha como foco a coleta de informações detalhadas sobre negócios e finanças, provavelmente para viabilizar ataques de spear phishing muito mais direcionados no futuro.
“A sofisticação e a singularidade da campanha estão na capacidade de produzir em massa sites convincentes e personalizados, que se adaptam a diferentes domínios ilegítimos ou impostores”, observou a Fortra na época. “Os threat actors conseguem escalar phishing sofisticado ao usar os recursos de automação de marketing da ActiveCampaign impulsionados por IA para variar o design, o conteúdo e o fluxo, criando campanhas de phishing mais convincentes e com mais rapidez.”
Na versão mais recente da campanha, segundo a Microsoft, os e-mails usam os caracteres invisíveis de tag como padrão de ofuscação, inserindo-os em palavras-chave financeiras comuns para quebrá-las e contornar filtros de e-mail que buscam correspondência literal de palavras-chave ou assinaturas.
Por exemplo, um termo de isca ligado a finanças, como “funding”, se transforma em “fun⟨U+E0020⟩ding”, o que parece normal para quem recebe o e-mail, mas ainda assim ajuda a driblar os controles de segurança.
“Para o destinatário, e para sistemas de análise que descartam ou normalizam esses caracteres, a palavra continua sendo funding”, explicou a Microsoft. “Para um detector que procura a string literal funding, ou uma expressão regular que não leva em conta pontos de código invisíveis intercalados, a sequência de bytes já não contém a palavra-chave contínua.”
Embora o uso de caracteres invisíveis ou semelhantes não seja uma técnica nova em phishing e ataques de homógrafos, o que chama atenção aqui é a escolha dos caracteres, especificamente o bloco Unicode Tags, além da escala da campanha, que gerou milhões de mensagens por dia.
A campanha foi associada ao uso de centenas de domínios descartáveis com tema financeiro, com iscas que imitavam padrões de phishing ligados a empréstimos empresariais, linhas de crédito e adiantamento de recursos, normalmente associados a fraude ou a esquemas de coleta de credenciais. Os 10 principais domínios de remetente com mais ocorrências são os seguintes:
guardiangrowthfunding[.]com
digitalcapitalboost[.]com
thebusinessloanexpress[.]com
yourlocfunding[.]com
advancefundingboost[.]com
guardiancapitalway[.]com
harboradvancefunding[.]com
unitedfundingwave[.]com
directcapitalboost[.]com
onlinedirectfinance[.]com
Além disso, esses e-mails enviados a partir de domínios com temática financeira são encaminhados pela ActiveCampaign, fazendo com que cada link de saída no corpo da mensagem passe pelos próprios domínios de rastreamento de cliques da empresa, “acemlnd[.]com” e “activehosted[.]com”.
A própria ActiveCampaign afirmou que testou seus sistemas de moderação de conteúdo com mensagens contendo caracteres invisíveis em Unicode e que esses e-mails recebem o mesmo veredito de moderação que suas versões sem ofuscação. A empresa também disse que o uso intenso dessa técnica é tratado como um “sinal suspeito”.
“Como em qualquer serviço de envio compartilhado, o abuso de contas ou fluxos de trabalho de clientes por parte de invasores pode complicar a filtragem baseada em reputação”, disse a Microsoft. “Ao se originar de uma plataforma de marketing respeitável, com reputação de IP e autenticação já estabelecidas, a atividade pode parecer mais parecida com tráfego legítimo de marketing e dificultar a filtragem baseada em reputação.”
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