A universidade francesa onde espiões recebem treinamento
5 de Janeiro de 2026

O professor universitário Xavier Crettiez admite não conhecer os nomes reais de muitos alunos em seu curso. Embora essa seja uma situação incomum no meio acadêmico, o trabalho do professor Crettiez está longe do padrão tradicional. Ele participa do treinamento dos espiões franceses.

“Raramente sei o histórico dos agentes de inteligência quando chegam ao curso, e duvido que os nomes fornecidos sejam verdadeiros”, afirma. Se você imaginasse uma escola de espionagem, o campus da Sciences Po Saint-Germain, na periferia de Paris, seria o cenário ideal. Com prédios austeros, quase sombrios, do início do século XX, cercados por ruas cinzentas e portões metálicos imponentes, o local transmite discrição. A grande peculiaridade está em seu diploma, que reúne alunos comuns, geralmente na casa dos 20 anos, e agentes ativos dos serviços secretos franceses, com idades entre 35 e 50 anos.

O curso se chama Diplôme sur le Renseignement et les Menaces Globales, ou Diploma em Inteligência e Ameaças Globais. A iniciativa surgiu há dez anos a partir de uma demanda das autoridades francesas, após os ataques terroristas de 2015 em Paris. Na ocasião, o governo francês lançou uma grande campanha de recrutamento para os serviços de inteligência e pediu à Sciences Po, uma das principais universidades do país, que criasse um curso para formar novos agentes e oferecer treinamento contínuo aos espiões já em atuação.

Grandes empresas também mostraram interesse, tanto para capacitar suas equipes de segurança quanto para recrutar os formandos mais jovens.
O diploma prevê 120 horas de aulas distribuídas em quatro meses.
Para alunos externos — espiões e profissionais indicados por empresas — o custo gira em torno de €5.000.
O objetivo central é identificar ameaças em qualquer lugar, além de aprender a monitorá-las e neutralizá-las.
Entre os temas abordados estão economia do crime organizado, jihadismo islâmico, coleta de inteligência corporativa e violência política.
Para assistir a uma das aulas e conversar com os alunos, precisei passar por uma triagem dos serviços de segurança franceses.
A aula que participei discutiu “inteligência e excesso de dependência da tecnologia”.

Um dos alunos com quem conversei é um homem na casa dos 40 anos que se apresenta como Roger.
Em inglês preciso e truncado, ele diz ser banqueiro de investimentos e explica: “Dou consultoria na África Ocidental e entrei no curso para fornecer avaliações de risco aos meus clientes naquela região.”

O professor Crettiez, que ministra um módulo sobre radicalização política, afirma que os serviços secretos franceses tiveram grande expansão nos últimos anos. Atualmente, cerca de 20 mil agentes compõem o que ele chama de “círculo interno”. Esse grupo inclui a DGSE, equivalente francês ao MI6 britânico ou CIA dos EUA, que atua no exterior; e a DGSI, responsável pelas ameaças internas, semelhante ao MI5 ou FBI.

Mas o professor destaca que o trabalho vai além do terrorismo.
“Além dessas duas principais agências, existe também a Tracfin, uma agência de inteligência especializada em lavagem de dinheiro.”
A Tracfin monitora o crescimento da atividade mafiosa, especialmente no sul da França, envolvendo corrupção em setores públicos e privados, alimentada principalmente pelos lucros do tráfico ilegal de drogas.

Entre os outros professores do curso estão um oficial da DGSE que atuou em Moscou, um ex-embaixador francês na Líbia e um alto funcionário da Tracfin. O chefe de segurança da gigante francesa de energia EDF também coordena um módulo. O interesse do setor privado pelo diploma segue em alta. Grandes empresas, especialmente dos setores de defesa, aeroespacial e bens de luxo, buscam formar seus profissionais diante das constantes ameaças de cibersegurança, espionagem e sabotagem.

Recém-formados do curso foram recrutados por organizações como a operadora de telefonia Orange, a Thales, líder em defesa e aeroespacial, e o grupo LVMH, dono de marcas como Louis Vuitton, Dior e dos champanhes Dom Pérignon e Krug.

Nesta edição do curso, 28 alunos estão matriculados, seis deles agentes de inteligência. É possível identificá-los pelo comportamento reservado: se reúnem em grupos durante os intervalos, mantêm distância dos estudantes mais jovens e demonstram pouco entusiasmo quando abordados. Sem revelar cargos, eles afirmam que o curso é uma via rápida para promoção, saindo do escritório para o trabalho de campo.

Um deles comenta que o ambiente acadêmico oferece novas perspectivas. Nas listas de presença, assinam apenas com o primeiro nome. Entre os estudantes mais jovens, Alexandre Hubert, de 21 anos, destaca o interesse por entender a “guerra econômica entre Europa e China”. Ele afirma: “Ver a coleta de inteligência como nos filmes do James Bond não faz sentido. O trabalho é analisar riscos e desenvolver estratégias para neutralizá-los.”

Outra aluna, Valentine Guillot, também de 21 anos, conta que foi inspirada pela popular série francesa de espionagem Le Bureau. “Descobrir esse mundo, do qual eu só conhecia pela TV, foi uma oportunidade incrível. Agora estou muito interessada em ingressar nos serviços de segurança.”

Quase metade dos estudantes são mulheres, o que representa uma mudança recente, segundo Sebastien-Yves Laurent, especialista em tecnologia aplicada à espionagem e também professor.

“O interesse das mulheres por inteligência é algo novo. Elas acreditam que essa atividade pode contribuir para um mundo melhor.”

Além disso, ele destaca que todos os jovens têm um forte sentimento patriótico, muito diferente de duas décadas atrás.
Para se inscrever no curso, é indispensável ter cidadania francesa, embora alguns casos de dupla nacionalidade sejam aceitos.
No entanto, o professor Crettiez alerta para o cuidado com os candidatos: “Recebo regularmente inscrições de mulheres israelenses e russas muito atraentes, com currículos impressionantes. Como era de se esperar, elas são rejeitadas imediatamente.”

Em uma foto recente da turma, é fácil identificar os espiões — eles aparecem de costas para a câmera.
Embora todos, estudantes e agentes, sejam fisicamente aptos, o professor Crettiez quer desmistificar o glamour dos filmes de espionagem.

“Poucos novos agentes vão para o trabalho de campo. A maior parte das funções nos serviços franceses é exercida em escritórios.”

Publicidade

Proteja sua empresa contra hackers através de um Pentest

Tenha acesso aos melhores hackers éticos do mercado através de um serviço personalizado, especializado e adaptado para o seu negócio. Qualidade, confiança e especialidade em segurança ofensiva de quem já protegeu centenas de empresas. Saiba mais...