A maioria das organizações já conta com planos de resposta a incidentes, ferramentas de segurança e equipes técnicas.
Ainda assim, uma nova pesquisa indica que muitas continuam sem a coordenação, a visibilidade e o alinhamento com a alta gestão necessários para resistir a um ataque cibernético grave.
Segundo o relatório The State of Incident Response Readiness 2026, baseado em uma pesquisa com 600 executivos seniores de segurança de TI realizada pela Vanson Bourne em janeiro e fevereiro de 2026, 73% das organizações admitem que não estariam “totalmente preparadas” se sofressem um ataque cibernético relevante amanhã.
Os resultados apontam para uma lacuna crítica entre ter capacidade de resposta e conseguir executá-la com eficiência sob pressão.
O estudo também mostra que os ataques cibernéticos já fazem parte do risco recorrente dos negócios.
Mais de três quartos das organizações, 76%, sofreram pelo menos um ataque cibernético nos últimos 12 meses, enquanto 32% relataram mais de uma ocorrência.
Prontidão para resposta a incidentes segue como ponto fraco
A resposta a incidentes evoluiu muito além da contenção técnica.
Hoje, uma resposta madura exige gestão de crise pela liderança, coordenação jurídica e regulatória, comunicação com partes interessadas, investigação em toda a empresa, correção, recuperação e monitoramento pós-incidente.
A pesquisa indica que muitas organizações ainda lutam para integrar esses elementos de forma coordenada.
Menos de 40% dos entrevistados classificaram componentes essenciais da resposta a incidentes como “altamente eficazes”, incluindo planos documentados, exercícios de simulação, caça a ameaças, perícia digital e monitoramento 24 horas por dia, 7 dias por semana.
A questão não é apenas saber se essas capacidades existem.
A preocupação maior é se elas funcionam juntas quando é preciso decidir rápido.
Falhas de coordenação atrasam a resposta
Um dos achados mais relevantes é o impacto do atrito interno sobre os esforços de resposta.
O relatório mostra que 90% das organizações esperam dificuldade para coordenar as partes interessadas durante um incidente grave.
Esse problema de coordenação se torna ainda mais sério quando equipes jurídicas, de comunicação, segurança, TI e executivos não estão alinhadas antes do início de um incidente.
A pesquisa constatou que 75% dos entrevistados concordam que atrasos ou incertezas sobre a participação das equipes jurídica e de comunicação tornam mais lenta a tomada de decisão durante incidentes cibernéticos.
O relatório também mostra que 89% apontam envolvimento limitado da liderança ou do conselho na prontidão e na tomada de decisão em resposta a incidentes.
Isso cria um padrão perigoso durante um incidente em andamento:
- as equipes técnicas investigam e contêm o ataque
- executivos exigem atualizações antes de aprovar ações importantes
- as equipes jurídica e de comunicação entram tarde no processo
- decisões sobre divulgação, mensagens a clientes e escalada se atrasam
- as equipes de resposta perdem tempo justamente quando a contenção exige velocidade
Na prática, a falta de clareza sobre responsabilidades pode transformar a resposta a incidentes em um ciclo reativo.
Em vez de executar um plano ensaiado, as equipes gastam tempo precioso informando partes interessadas, esclarecendo autoridade e aguardando aprovações.
Lacunas de visibilidade aumentam o risco de novos incidentes
O relatório também destaca um grande desafio técnico: muitas organizações não conseguem enxergar completamente onde os atacantes avançaram.
Segundo a pesquisa, 78% dos entrevistados concordam que pontos cegos no ambiente criam acesso persistente para invasores e aumentam o risco de incidentes repetidos.
Esses pontos cegos podem abranger infraestrutura local, ambientes de cloud pública, endpoints, plataformas SaaS, sistemas de identidade e ambientes de tecnologia operacional.
Essa falta de visibilidade pode impedir os responsáveis pela resposta de responder com segurança a perguntas essenciais, como:
- onde o invasor entrou?
- quais sistemas foram acessados?
- houve movimento lateral?
- contas privilegiadas foram comprometidas?
- malware ou mecanismos de persistência foram removidos?
- o invasor pode voltar após a recuperação?
Sem visibilidade confiável, as organizações correm o risco de conter apenas parte do incidente e deixar o acesso do atacante intacto.
Ambientes de OT e ICS ampliam o risco para o negócio
O relatório mostrou que 84% das organizações estão preocupadas com a possibilidade de os invasores avançarem dos sistemas corporativos de TI para ambientes de tecnologia operacional ou de sistemas de controle industrial.
Essa preocupação é especialmente grave em setores como manufatura, energia, saúde, transporte e infraestrutura crítica, onde incidentes cibernéticos podem afetar operações físicas.
Se os atacantes migrarem de TI para OT ou ICS, o impacto pode ir além de roubo de dados ou interrupção de negócios.
Pode atingir produção, segurança, prestação de serviços e prazos de recuperação.
Os dados sugerem que muitas organizações reconhecem essa exposição, mas ainda não têm a visibilidade unificada necessária para detectar e impedir rapidamente esse movimento entre ambientes.
Ataques cibernéticos já causam prejuízos concretos
O estudo mostra que incidentes cibernéticos já estão produzindo consequências tangíveis em diferentes setores e regiões.
Entre as organizações atacadas nos últimos 12 meses, os impactos incluíram paralisação operacional, perda de dados, dano à reputação, perda de clientes, queda de receita e interrupção na liderança executiva.
Os resultados variam por setor:
- organizações de varejo foram as que mais relataram paralisações operacionais e perda de receita ou lucro
- empresas de manufatura e serviços financeiros foram mais propensas a relatar perda de dados
- organizações de cripto e finanças descentralizadas registraram a maior incidência de ataques
- instituições privadas de saúde relataram grande preocupação com atrasos jurídicos e de comunicação
Também surgiram diferenças regionais.
A América do Norte registrou a maior incidência de ataques cibernéticos, enquanto os respondentes da APAC foram os que mais relataram perda de dados, dano reputacional e perda de clientes.
A Europa teve menos incidentes no total, mas, quando ocorriam, eram mais propensos a resultar em perda de receita ou lucro.
Ransomware e ataques à cloud lideram preocupações futuras
Olhando para frente, os entrevistados identificaram um conjunto amplo de ameaças capazes de causar interrupção financeira, operacional ou reputacional grave.
O ransomware apareceu como a principal preocupação, seguido de perto por ataques a ambientes de cloud.
No entanto, os dados sugerem que as organizações não estão lidando com uma única ameaça dominante.
Em vez disso, estão se preparando para um cenário diversificado que inclui comprometimento de cloud, abuso de identidade, risco de terceiros, ameaças impulsionadas por IA, ransomware e ataques que se movem entre ambientes híbridos.
Isso torna a prontidão para resposta a incidentes mais difícil de definir.
As organizações precisam ser capazes de responder a vários caminhos de ataque, não apenas a um único cenário.
Adoção de IA cresce, mas não substitui prontidão
O relatório mostra que as organizações estão adotando cada vez mais capacidades baseadas em IA e machine learning para detecção de ameaças e resposta a incidentes.
Quase um terço das organizações já relata uso intenso de IA na maior parte ou em todas as atividades de detecção de ameaças e resposta a incidentes, acima dos 25% do ano passado.
Até 2027, 63% esperam que a IA esteja integrada a essas atividades.
O estudo sugere que a IA pode fortalecer a resposta a incidentes quando é incorporada a fluxos de trabalho maduros.
Organizações com uso moderado ou intenso de IA tiveram mais chance de classificar os elementos da resposta a incidentes como eficazes, em comparação com aquelas que usam IA de forma limitada.
Mesmo assim, os dados também indicam que a IA não deve ser tratada como substituta de governança, visibilidade e execução disciplinada.
A IA pode acelerar a triagem, a caça a ameaças e a investigação, mas não resolve sozinha direitos de decisão pouco claros, coordenação fragmentada entre partes interessadas ou visibilidade incompleta.
Organizações reavaliam modelos de apoio à resposta
Outro achado relevante é que muitas organizações estão revendo seus relacionamentos com fornecedores externos de resposta a incidentes e detecção e resposta gerenciadas.
O relatório aponta que muitas esperam trocar de fornecedor ao fim dos contratos atuais.
Entre os motivos estão a necessidade de:
- apoio mais proativo à prontidão
- melhor cobertura em TI, OT, cloud e ambientes híbridos
- maior especialização em incidentes complexos
- visibilidade mais ampla, além de um único ecossistema tecnológico
- suporte mais rápido durante investigações sob alta pressão
Os dados também mostram preocupação com a dependência excessiva de ecossistemas tecnológicos restritos durante a resposta a incidentes.
Quando as equipes ficam limitadas a uma única plataforma ou conjunto de ferramentas, a investigação e a contenção podem ser restringidas pelo que aquele ecossistema consegue detectar, acessar ou suportar.
Pode ser útil avaliar se as equipes internas e os fornecedores externos conseguem operar em múltiplas ferramentas de segurança, plataformas de cloud, sistemas de identidade, aplicações SaaS e ambientes de OT.
Como fortalecer a prontidão para resposta a incidentes
Os resultados sugerem que a prontidão para resposta a incidentes deve ser tratada como uma disciplina operacional contínua, e não como um plano estático ou um exercício anual de conformidade.
As organizações podem reduzir atrasos na resposta ao focar em algumas frentes práticas.
1.) Definir direitos de decisão antes do incidente
Equipes de segurança, executivos, jurídico, comunicação, conformidade e lideranças de negócio devem saber quais são seus papéis antes de uma crise começar.
Os caminhos de escalada, os limites de aprovação e as responsabilidades de comunicação precisam estar documentados e treinados.
2.) Testar a coordenação entre áreas
Exercícios de simulação devem incluir participantes técnicos e não técnicos.
Esses testes ajudam a identificar onde a tomada de decisão desacelera, onde a autoridade não está clara e onde os planos de resposta não refletem dependências reais do negócio.
3.) Validar a visibilidade nos ambientes críticos
As organizações devem verificar se conseguem investigar atividades em endpoints, sistemas de identidade, plataformas de cloud, aplicações SaaS, infraestrutura local e ambientes de OT, quando aplicável.
A visibilidade deve ser testada por meio de exercícios como caça a ameaças, simulações de ataque, avaliações de red team ou iniciativas de purple team.
4.) Usar IA para apoiar, não substituir, os processos de resposta
IA e automação podem acelerar a triagem, o enriquecimento de alertas, a investigação e a caça a ameaças.
Porém, esses recursos devem estar integrados a fluxos de trabalho definidos, com supervisão humana, critérios claros de escalada e procedimentos de resposta testados.
5.) Avaliar a capacidade interna e externa de resposta
As organizações devem definir quais funções de resposta a incidentes conseguem executar internamente e onde será necessária expertise externa.
Quando usados, os fornecedores devem ser avaliados com base em experiência em incidentes, velocidade de resposta, profundidade técnica, capacidade de operar em diferentes ambientes, práticas de comunicação e apoio à melhoria pós-incidente.
A principal lição é que prontidão depende de execução.
Planos, ferramentas e fornecedores importam, mas só reduzem o risco quando estão conectados por processos testados, autoridade clara e visibilidade confiável.
O que fica claro no fim
A pesquisa traça um cenário objetivo: a maioria das organizações está sendo atacada, mas muitas não confiam que suas capacidades de resposta a incidentes resistirão sob pressão.
O desafio já não é apenas montar um plano de resposta.
É garantir que esse plano funcione entre equipes, tecnologias, executivos, áreas jurídicas, comunicação e operações de negócio quando um ataque real acontecer.
À medida que os invasores se movem mais rápido por cloud, TI, identidade, SaaS e ambientes de OT, a prontidão para resposta a incidentes precisa se tornar uma disciplina contínua de negócio.
Organizações que esperarem um incidente real para descobrir falhas de visibilidade, autoridade ou coordenação podem perceber que o custo do atraso é medido não só em sistemas afetados, mas também em receita, reputação e confiança.
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